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Como eventos transformam setores ao abrir espaço para problemas reais
Em meu artigo anterior, discuti como os Novos 4 P’s e a Visão 360º podem resgatar a essência das Feiras de Negócios em meio à dispersão da Modernidade Gasosa. Defendi que um evento deve atuar como um Farol, iluminando caminhos e não apenas a si mesmo. Hoje, quero trazer um exemplo concreto e corajoso da aplicação do potencial do P de Projects. Recentemente vi no meu feed do LinkedIn uma publicação de Renato Cordeiro sobre o Modern Construction Show e sua recente parceria estratégica com a SOBRATEMA. O evento se posiciona como mais do que uma feira; ele se propõe a ser o epicentro da transformação da construção civil industrializada no Brasil. Contudo, a verdadeira beleza deste evento não reside apenas no aspecto comum de um grande evento com Feira de Negócios e Congresso, com estandes e visitantes, mas na sua coragem de expor as feridas do setor.
Talvez o maior legado de um evento não seja aquilo que ele mostra, mas aquilo que ele faz uma indústria passar a enxergar.
O Problema que Ninguém Queria Ver
A construção industrializada no Brasil enfrenta um paradoxo: o modelo de fabricar fora e montar no local é teoricamente perfeito, mas esbarra em uma variável frequentemente negligenciada — a logística pesada. Sem transporte eficiente e maquinário de montagem de grande envergadura, a industrialização trava. Não sou especialista na questão, mas compreendo a dimensão do debate. Ao fechar uma parceria com a SOBRATEMA, a Francal deu um passo de mestre na visão de Projects. O evento abre as portas do debate, apresentando as associações idealizadoras do setor (ABCEM, ABCIC, ABRACIME) e convida a discutir a construção industrializada no país. Neste sentido, o evento assume a responsabilidade e o protagonismo de resolver uma lacuna sistêmica, entendendo a dor real de uma indústria e oferecendo um local neutro para fomento, em prol do bem maior e do desenvolvimento nacional.
Uma Proposta Disruptiva: O Polo Industrial Temporário de Construção (PITC)
Como apaixonada por eventos inteligentes e propositivos, um evento como esse poderia ampliar a discussão aplicando uma pergunta fundamental: Como industrializar a construção sem industrializar os impactos? Uma pergunta que me fiz ao ler a publicação de Renato Cordeiro, e que envolve um olhar 360º e o conceito de Urbanismo Regenerativo. Fiquei sonhando na ideia de "decoupar" o problema logístico através da criação de Polos Industriais Temporários de Construção (PITC). Imagine obras de grande envergadura, como aeroportos, portos, pontes, complexos hospitalares, bairros planejados, que, em vez de transportarem módulos por centenas de quilômetros, instalam micro pólos produtivos temporários e desmontáveis nas proximidades. Esta abordagem reduziria drasticamente o tráfego pesado, as emissões de carbono e o risco de avarias. Mas o verdadeiro legado estaria no que acontece após a obra. É claro que minha provocação aqui gera outras questões como: "Quem paga pela reconversão ambiental ao final da obra?", ou "Estamos dispostos a aceitar obras mais lentas no início para garantir um legado ambiental no final?". Meu objetivo aqui não é entrar no tema em si, mas mostrar a grandeza de um evento que "expõe" problemas e propósitos disputáveis.Infraestrutura Temporária, Benefícios Permanentes
Seguindo a lógica da melhoria contínua e da sustentabilidade, esses pólos temporários não seriam apenas estruturas produtivas efêmeras; seriam iniciativas estratégicas. Eles nasceriam com um propósito duplo: servir à construção e, ao final, serem reconvertidos para uso ambiental. O terreno que antes abrigava a montagem industrial poderia ser transformado em um oásis de jardins, um viveiro florestal ou um corredor ecológico. Essa prática envolveria transformar o "vazio" do canteiro de obras em um valor duradouro para a sociedade.Conclusão
Enfim, não quero divagar com sonhos que fogem da minha área de conhecimento. Quero apenas reforçar que eventos como o Modern Construction Show, que "abrem as portas" para os problemas e se colocam disponíveis para o debate, são os que realmente contribuem para o crescimento do país. Eventos assim deixam de ser apenas uma vitrine para se tornarem agentes de desenvolvimento nacional.A coragem de um evento não é medida pela ausência de conflitos, mas pela qualidade dos propósitos disputáveis que ele coloca em pauta.
Sugestão de Leitura Complementar
Estes livros não falam necessariamente de eventos ou de construção, mas de como oferecer algo maior para um setor ou país:- ‘A Estratégia do Oceano Azul’ por W. Chan Kim e Renée Mauborgne
- ‘Comece pelo Porquê’ por Simon Sinek
- ‘O Ponto de Mutação’ por Fritjof Capra
- 'Antifrágil’ por Nassim Nicholas Taleb
